Baseado em uma história real

Proprietários do Salão de Forró

Entre conversas de salão, memórias da Galeria Olido e lições do jogo Street Fighter, como acabei descobrindo que a etiqueta da pista ainda guarda velhos vícios.

Ilustração vibrante de um baile de forró, com casal conversando ao centro cercado por músicos tocando sanfona, zabumba e triângulo, dançarinos ao fundo e elementos da cultura nordestina como lua, sol e bandeirinhas

Eu dançava com a Aline (nome fictício) quando ela contou que ficara irritada com a atitude de um homem. Fiquei em alerta no mesmo instante, antevendo alguém que tivesse ultrapassado os limites do bom senso e a quem eu precisaria pedir, com firmeza e sem rodeios, que se retirasse do salão. Logo percebi que não seria necessária tanta energia, mas o caso trouxe uma surpresa sobre um hábito que eu julgava morto e enterrado.

Ela explicou que conversava com o irmão quando um homem se aproximou. Em vez de dirigir a palavra a ela — supondo que fossem um casal —, o sujeito se inclinou na direção do acompanhante para pedir autorização para convidar a dama para dançar.

Lembrei-me de como era antigamente. Sou dos velhos tempos do salão e sei, por ter presenciado tudo de perto, que muitos homens agiam como se fossem proprietários da parceira, decidindo com quem ela poderia ou não girar na pista.

Para contornar essa situação, muitos recorriam a táticas mais discretas: observavam o casal à distância e, ao verem o acompanhante ir ao banheiro, aproveitavam o momento para convidar a mulher diretamente, sem criar atrito. Se ela aceitava, era porque já havia esse espaço; se recusava o convite, o parceiro já demonstrava ciúme, e o limite era respeitado.

A primeira vez que vi esse assunto ser debatido foi em 2007. Eu acompanhava uma aula de forró numa tarde de sábado na Galeria Olido, no centro de São Paulo, quando a professora foi curta e direta. Eram palavras à frente do seu tempo, embora o forró já tivesse virado febre na capital paulista desde o final dos anos 1990: “Gente, no baile, quando alguém vai dançar com a dama e pede permissão ao parceiro do lado, está errado. Tem que pedir diretamente à dama.”

Naquele momento, minhas dúvidas acabaram de vez. Formado nessa tradição antiga, eu já vinha me adaptando, mudando um costume que meus pais e avós certamente seguiam. Posso afirmar que essa era a normalidade no passado e que, em 2007, ainda parecia comum. Foi necessário o pioneirismo de professores como ela para ajudar na conscientização.

Mas a ideia ainda custou a ser aceita. No mesmo dia, uma amiga reagiu com restrição à audácia da professora e discordou na hora: disse que a instrutora só falava aquilo por não ter um namorado, pois se outra mulher tirasse o companheiro dela para dançar, ela mudaria de opinião rapidinho. Independentemente da discordância, guardei a lição: o convite é sempre para a mulher, nunca para quem se julga dono dela.

Agora, quase no final de 2026, quando imaginava que esse velho hábito estivesse extinto, me deparo com a mesma cena.

Talvez por pena do pobre diabo, tentei argumentar com a Aline. Imaginando tratar-se de alguém mais velho e teimoso, disse que talvez o homem não tivesse tido a sorte que eu tive de encontrar quem o ensinasse. “Não”, respondeu ela de pronto, “ele tem a minha idade.” Alguém na casa dos 20 anos, pensei. A juventude dele, para ela, eliminava qualquer desculpa.

“De certa forma”, respondi, “você o ensinou ao dizer ‘não’. Foi tudo muito divertido.” Depois completei, recorrendo à máxima de Dhalsim, meu lutador indiano favorito no Street Fighter do Super Nintendo: “Meditar é viver, mas quem é que não gosta de uma briguinha de vez em quando?” Ela sorriu, disse que não gostava de briga, mas que ficara nervosa com a situação. E arrematou dizendo que o moço ainda a observava de longe com um olhar de arrependido; se ele se retratasse, demonstrando ter aprendido a lição, ela até aceitaria dançar com ele.

A dança entre nós continuou, entre risadas e a certeza renovada de que a pista é, acima de tudo, um espaço de aprendizado.

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