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Neide Nazaré começou na música aos 11 anos, na Praça do Forró

Filha de pernambucanos, a cantora cresceu no espaço fundado pelo pai em São Paulo, aprendeu zabumba ouvindo discos em casa e dividiu o palco com Dominguinhos.

Neide Nazaré começou no forró aos 11 anos na Praça do Forró

Aos 11 anos, Neide Nazaré ainda não sabia tocar zabumba. Ivaneide Maria de Andrade já tinha, porém, uma obrigação em casa. O pai colocava discos de forró para tocar e pedia que ela prestasse atenção. Era preciso ouvir Luiz Gonzaga, Dominguinhos e outros artistas para aprender a distinguir as levadas e os ritmos. Depois, vinha a tentativa com o instrumento. Neide achava difícil e, como qualquer criança daquela idade, preferia brincar. O pai, Luiz Severino da Silva, insistia que ela precisava aprender porque estava preparando um projeto que, segundo ele, seria grande.

Poucos anos depois, o projeto começaria a transformar a vida da família. Em 1980, Luiz criou a Praça do Forró, em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo, e levou para o local artistas e músicos ligados à cultura nordestina. Neide e as irmãs passaram a fazer parte das apresentações. O que começou com uma lâmpada instalada em uma árvore acabou se tornando um ponto de encontro de forrozeiros, com apoio da prefeitura, da Secretaria da Cultura e da Palace Tour, empresa que mais tarde estaria ligada ao complexo do Anhembi. Foi naquele palco que a menina que não queria estudar zabumba começou a construir a trajetória que hoje atende pelo nome Neide Nazaré.

Luiz era pernambucano de Maraial e havia chegado a São Paulo ainda jovem. Gostava de sanfona e trazia do Nordeste a experiência de uma família que tinha alguma estabilidade financeira. Havia ganhado uma sanfona em Pernambuco, em uma época em que o instrumento era associado, segundo Neide, a pessoas de maior poder econômico. Não se tornou músico profissional, mas tocava em casa e gostava de reunir amigos. Cícera, sua mulher, também pernambucana, cantava e acabaria sendo a primeira professora de canto da filha.

O casal teve seis filhos. Ivo era o mais velho. Depois vinha Neide, seguida por Marinês, Ivone, Luiz Severino e Cícero, o Cicinho. A casa em São Miguel Paulista era frequentada por músicos e famílias de origem nordestina. Neide se lembra especialmente das mulheres da família Teixeira, de Garanhuns, que tocavam acordeom e, segundo ela, muitas vezes davam um “banho” nos homens quando o assunto era instrumento.

A música estava presente, mas Luiz tinha uma ambição maior. Na época, segundo Neide, São Miguel Paulista tinha muitos moradores nordestinos, mas poucos espaços dedicados ao forró. Ele começou a organizar encontros em casa e a reunir músicos e amigos. Depois de sofrer um acidente aos 29 anos, ficou praticamente sem condições de trabalhar e passou a aguardar a aposentadoria. Foi então que decidiu criar um espaço permanente para o forró.

Mesmo com dificuldades para caminhar, Luiz foi à subprefeitura pedir autorização para ocupar a praça. Usava um colete de aço e levava um ofício. Relembra a cantora que o pai chegou dizendo que em menos de um mês conseguiria reunir cerca de 2.000 pessoas no local. Também procurou jornalistas para registrar o projeto. Ele não tinha ainda estrutura para realizar os shows, mas já falava como se tudo estivesse encaminhado.

A praça escolhida foi a Padre Aleixo Monteiro Mafra. O primeiro show ocorreu em abril de 1980, segundo os documentos que Neide afirma guardar até hoje. Naquele começo, havia apenas um ponto de luz em uma árvore. Luiz conseguiu autorização e instalou a lâmpada por conta própria. Depois vieram a iluminação definitiva e o equipamento de som, cedido pela administração pública. A Palace Tour passou a apoiar o projeto, assim como a Secretaria da Cultura.

Neide acompanhava a movimentação ainda acanhada. Ela e as irmãs começaram a tocar nos sábados. Luiz apresentava os shows ao lado de Saraiva e também cuidava da produção. O sanfoneiro conhecido como senhor Paraíba participava das apresentações. O fotógrafo Zelão registrava os eventos e, quando uma das crianças cansava, ajudava a carregá-la no colo. Como conta Neide, ele mantém fotografias e filmagens de diferentes períodos da Praça do Forró.

A família também passou a receber músicos que Neide conhecia dos discos que o pai mandava ouvir. Dominguinhos foi um dos nomes que se aproximaram do projeto. Anastácia e Sebastião do Rojão também passaram pelo palco. Para uma menina que ainda estava aprendendo a tocar, aquelas apresentações funcionavam como uma espécie de escola prática.

Luiz chamava as filhas de “suas meninas”. Neide tocava zabumba, Marinês ficava no triângulo e Ivone tocava gonguê e fazia os vocais. Neide também cantava. Uma das primeiras músicas que lembra de ter apresentado para o público foi “Fuscão Preto”. Ela subia ao palco e cantava como sabia. Ivo, que não tocava, percebeu que a irmã errava um trecho da letra e comentou com a mãe. Cícera corrigiu a filha. Outra música que fazia parte do repertório era “Que triste madrugada foi aquela que eu perdi meu violão”. Neide conta que a mãe até interrompia os afazeres domésticos para ouvi-la.

Em 1983, a formação musical de Neide deu mais um passo. Ela começou a estudar com o maestro Oreste Sinatra, em São Miguel Paulista, e permaneceu cerca de cinco ou seis anos. A escola, entretanto, foi ficando difícil de conciliar com a agenda de shows. Aos 13 anos, ela já viajava para apresentações e precisava estudar durante a viagem. Ia fazer provas e quase não conseguia ir às aulas.

Foi também na adolescência que ganhou o primeiro nome artístico. O presidente da Palace Tour sugeriu que Ivaneide passasse a ser chamada de “Princesinha de Nazaré”. Ela não gostou de imediato. Tinha vergonha e dizia que não se considerava uma princesa. O nome, porém, ficou. A partir dali, passou a ser anunciada dessa maneira nos eventos e começou a construir uma carreira que ultrapassava a praça de São Miguel Paulista.

Os shows se multiplicaram. Vieram contratos com a Secretaria da Cultura e apresentações ligadas ao Anhembi. A banda chegou a reunir cerca de 12 integrantes, entre músicos e dançarinos. Neide cantava forró, mas também outros gêneros quando o público pedia. Dominguinhos, segundo ela, sempre a incentivou a experimentar. Se alguém queria ouvir um bolero, não havia motivo para recusar. O pai também entendia que os filhos trabalhavam para ajudar em casa.

Dominguinhos teve outro papel na formação da cantora. Ele insistia que Neide valorizasse o nome criado a partir da família. A sugestão era “Neide Nazaré”. Ela gostou, mas não adotou imediatamente. O nome “Princesinha de Nazaré” continuou sendo usado durante anos, inclusive em entrevistas e apresentações de televisão. Neide chegou a participar de trabalhos para Globo e Band e lembra que, em uma gravação de comercial da Antarctica, Dominguinhos voltou a perguntar quando ela finalmente usaria o nome que ele havia sugerido.

Enquanto a carreira avançava, a Praça do Forró continuava ligada à família. Luiz era mais que o pai das meninas que subiam ao palco. Atuava como produtor, apresentador e responsável pela contratação dos músicos. Também fazia questão de que os profissionais tivessem registro na Ordem dos Músicos. Para ele, o documento era uma forma de proteger quem tocava. Neide lembra que o pai dizia aos músicos que, sem documentação, poderiam acabar trabalhando por muito menos do que deveriam receber.

A trajetória teve um momento de dor e virada em 1996. Em 16 de junho daquele ano, a praça estava lotada para um show que reunia mais de 2.000 pessoas. O sanfoneiro Galego do Acordeon, músico próximo da família e considerado por Neide um instrumentista excepcional, estava no palco. Durante a apresentação, sofreu um infarto e morreu.

O episódio marcou Neide profundamente. Seu pai também enfrentava problemas graves de saúde e passou a demonstrar preocupação com o futuro dos filhos. Ela acabou se afastando dos shows por cerca de dois anos. Nesse período, chegou a receber um convite para trabalhar como governanta na Europa, mas decidiu permanecer no Brasil. Para ela, aquela escolha estava relacionada ao compromisso que tinha com a música e com a história construída pela família.

Enquanto Neide dava uma pausa nos palcos, Cicinho começava a ocupar seu espaço. O irmão mais novo, nascido em 1985, cresceu observando músicos. Aprendeu contrabaixo sozinho, acompanhando os dedos de um colega chamado Valdeci. Em vez de receber uma aula formal, ficava olhando e tentava entender como o instrumento funcionava.

O aprendizado chamou a atenção. Cicinho acabou convidado para tocar no evento dos 500 anos do Brasil. A banda da família, ligada à tradição da Praça do Forró, foi a representante do forró naquele evento em São Miguel Paulista. Pouco antes da morte do pai, Cicinho apareceu para Neide com uma sanfona vermelha e fez um pedido. Queria que ela lhe ensinasse a tocar.

Neide perguntou se ele queria ser sanfoneiro. Ele respondeu que queria ser o melhor. A irmã então lhe disse que, antes disso, precisava ser humilde, estudar e se dedicar. A resposta reproduzia, de certa maneira, a educação que ela própria havia recebido do pai.

O pai morreu em 2001. Os filhos continuaram trabalhando juntos. Neide e Cicinho formaram o Forró Zoeira com Fernando no triângulo. Mais tarde, surgiu o nome Igarapé, escolhido depois de uma pesquisa sobre os trabalhadores da cana-de-açúcar e as festas realizadas após as colheitas. A banda passou a carregar esse nome, enquanto Neide continuava construindo uma carreira que já tinha mais de duas décadas.

A adoção definitiva de Neide Nazaré só veio anos depois. Pesquisadores e jornalistas voltaram a consultar entrevistas antigas de Luiz e encontraram novamente a sugestão feita por Dominguinhos. Neide entendeu que o nome poderia recuperar uma parte importante de sua história. Igarapé continuaria existindo como referência à banda e a uma fase de sua trajetória, enquanto Nazaré retomaria a ligação direta com o pai e com a Praça do Forró.

Hoje, Neide prepara novos trabalhos e mantém a atividade com a banda. Entre os lançamentos recentes estão “Menina Xaxadeira”, “Bonito Sempre Foi” (homenagem a Marinês) e “Dança o Forró do Jeito que Você Quiser”, com participação de Alcymar Monteiro. A produção atual reúne músicos que continuam ao lado dela e uma equipe que trabalha para apresentar novamente seu nome ao público.

A cantora também continua guardando a documentação deixada pelo pai. São jornais, fotografias, entrevistas e registros dos primeiros anos da Praça do Forró. O material ajuda a reconstruir uma época em que uma família de origem pernambucana levou para São Miguel Paulista uma música que já fazia parte de sua memória.

Neide tinha 11 anos quando Luiz mandava que ela ficasse no quarto ouvindo discos. Ela achava que aquilo era uma exigência exagerada para uma criança que queria brincar. Mais de quatro décadas depois, continua subindo ao palco com a zabumba, ao lado dos irmãos e de músicos que fazem parte de sua história. O pai não chegou a acompanhar toda essa trajetória, mas deixou para os filhos um projeto que começou com uma praça, uma promessa de reunir 2.000 pessoas e uma lâmpada instalada em uma árvore.

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