Artistas

A Banda Rastapé ajudou a levar o forró de São Paulo para uma nova geração

Formada em 1999, a banda surgiu em meio ao crescimento das casas de forró paulistanas e construiu uma trajetória entre a tradição nordestina e o público jovem.

Ilustração dos três irmãos do Rastapé ao lado do pai, que segura uma sanfona

No fim dos anos 1990, São Paulo vivia uma mudança na relação de seu público com o forró. As casas de dança recebiam cada vez mais jovens interessados na música nordestina, enquanto músicos que já circulavam pela cidade encontravam uma plateia disposta a aprender os passos, conhecer repertórios tradicionais e permanecer nas pistas durante horas. Foi nesse ambiente que, em 1999, nasceu a Banda Rastapé, formada a partir da união de músicos da família Lunguinho com forrozeiros que já faziam parte da cena paulistana.

Seu Jorge, na sanfona, os filhos Jorge Filho e Tico e outros músicos que passaram pelas primeiras formações ajudaram a definir o som do grupo. A banda cresceu em um momento em que o chamado forró universitário começava a ganhar espaço e a reunir pessoas que nem sempre tinham ligação familiar ou cultural com o Nordeste. O Rastapé passou a fazer parte desse movimento sem abandonar a referência do forró pé de serra. A tradição estava presente nos instrumentos e no repertório, mas o grupo também incorporava a experiência de uma geração criada em uma grande cidade.

Antes de chegar aos palcos maiores, a banda passou pelos espaços onde aquela cena estava sendo construída. Eram casas de forró, bailes e festas que funcionavam como ponto de encontro entre músicos e dançarinos. A dança tinha um papel importante nesse processo porque aproximava pessoas que talvez nunca tivessem procurado a música nordestina por conta própria. Para muitos dos frequentadores, o primeiro contato com Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro e outros artistas fundamentais acontecia justamente em uma pista de dança de São Paulo.

O primeiro trabalho do Rastapé veio em 2000. O Som do Forró foi lançado em parceria com o grupo Baião de Quatro e reuniu interpretações de clássicos do gênero. No mesmo período, a banda lançou Fale Comigo, seu primeiro álbum individual, com músicas próprias. O grupo começava, assim, a estabelecer uma identidade que combinava o repertório transmitido por gerações com novas composições e uma formação ligada ao ambiente urbano em que havia surgido.

Entre essas músicas estava “Colo de Menina”, composição de Jorge Filho. A canção se tornou um dos principais sucessos do grupo e ajudou a levar o nome Rastapé para além das casas de forró paulistanas. A banda passou a circular por outras regiões do país e a dividir palcos com nomes importantes da música brasileira. A trajetória também incluiu participações em projetos e gravações que ampliaram a presença do forró naquele período.

O crescimento aconteceu justamente quando o termo “forró universitário” começava a identificar uma nova geração de artistas e público. Rastapé, Falamansa e Bicho de Pé estavam entre os grupos que ganharam projeção em São Paulo. As casas de dança ajudaram a formar uma comunidade em torno do gênero, enquanto os músicos encontravam novas maneiras de apresentar uma tradição que já tinha décadas de história.

O rótulo, porém, nunca explicou sozinho o trabalho do Rastapé. Anos depois, Jorge Filho passou a questionar a associação da banda exclusivamente ao forró universitário. A expressão tinha relação com o público que frequentava os shows e com o momento em que o grupo cresceu, mas a base musical continuava sendo o forró de raiz nordestina. Essa distinção ajuda a entender o papel que o Rastapé desempenhou: a banda não precisou abandonar a tradição para chegar a um público que estava descobrindo o gênero.

Essa relação com o passado ficou especialmente evidente em Cantando a História do Forró, projeto lançado em 2005. O trabalho reuniu releituras de músicas de artistas que ajudaram a construir a história da música nordestina, entre eles Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Alceu Valença e Elba Ramalho. O projeto também teve participações de nomes como Alcione e Trio Nordestino. Ao recuperar esse repertório, o grupo reforçava uma característica que acompanharia sua trajetória: apresentar músicas conhecidas por gerações anteriores para um público que muitas vezes estava chegando ao forró naquele momento.

Havia duas histórias acontecendo ao mesmo tempo. De um lado, o Rastapé construía suas próprias músicas e procurava consolidar uma identidade. De outro, ajudava a aproximar novos ouvintes de um repertório que já fazia parte da memória do gênero. A banda ocupava esse espaço entre a continuidade e a renovação, algo que se tornou uma das marcas daquela geração do forró em São Paulo.

Mais de duas décadas depois da formação, a história do grupo continua ligada àquele período. O projeto Volta às Origens recupera músicas dos primeiros anos do Rastapé e reúne músicos da família para revisitar esse repertório. Em 2026, o projeto segue sendo apresentado às quartas-feiras no Canto da Ema, em São Paulo, uma das casas fundamentais da cena de forró da cidade.

A proposta tem um componente forte de memória para quem acompanhou o movimento no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000. Há músicas que continuam associadas às pistas e a uma época em que muitos jovens descobriram o forró nos bailes. Para quem chegou depois, o repertório funciona como uma forma de conhecer uma geração de músicos que ajudou a ampliar a presença do gênero em São Paulo.

A trajetória do Rastapé também mostra como uma banda pode se tornar parte de uma transformação cultural sem necessariamente ter sido criada com esse objetivo. O grupo surgiu quando o público das casas de forró estava mudando. Jovens que inicialmente chegaram pela dança passaram a ouvir os discos, acompanhar os artistas e conhecer os nomes que haviam construído o gênero antes deles. Nesse caminho, as bandas que estavam nos palcos funcionaram como uma ponte entre repertórios e gerações.

O Rastapé fez parte dessa ponte. Suas próprias composições ajudaram a construir a identidade de uma nova fase do forró, enquanto trabalhos como Cantando a História do Forró mostravam que a renovação não precisava significar esquecimento. A banda podia apresentar uma música nova e, no mesmo percurso, levar o público de volta aos artistas que vieram antes.

A história começou em 1999, quando músicos ligados à família Lunguinho se encontraram com outros forrozeiros da cena paulistana. Mais de vinte anos depois, parte dessa formação e desse repertório continua sendo revisitada. Entre uma geração que descobriu o forró nas casas de São Paulo e outra que chega hoje às pistas, o Rastapé permanece ligado a um período em que o gênero encontrou novos ouvintes sem deixar de olhar para suas próprias raízes.

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