Perto das onze da noite, o Canto da Ema ainda estava cheio. Cerca de 300 pessoas ocupavam o salão naquela quarta-feira de março de 2026, entre casais que rodavam pela pista, dançarinos que disputavam cada espaço e frequentadores que acompanhavam os últimos acordes da música. No palco, Seu Jorge Rastapé segurava uma sanfona de 120 baixos e estava cercado pelos três filhos e pelo neto — Jorge Filho, Tico, Maza e Pedrinho. Era mais uma noite do projeto Volta às Origens, criado para recuperar o ambiente das quartas-feiras que ajudaram a marcar a história do Rastapé no fim dos anos 1990.
Quando a música terminou, Jorge Filho trouxe uma cadeira para o palco. Seu Jorge se sentou e, por alguns minutos, o baile voltou a outro tempo. A proposta era tocar o instrumental para simular as noites em que o sanfoneiro tocava durante horas, atravessando a madrugada sem interromper a música. Naquela época, os bailes aconteciam em salões de chão de barro, onde a poeira subia conforme o público dançava, e o sanfoneiro precisava acompanhar o ritmo até o dia amanhecer.
A cena reunia três gerações da família e também resumia uma trajetória que começou muito antes de o Rastapé existir. Aos 75 anos, Jorge Lunguinho, conhecido como Seu Jorge Rastapé, continuava diante de uma sanfona como havia feito pela primeira vez ainda adolescente, em São José da Lagoa Tapada, na Paraíba. O instrumento havia mudado de tamanho e potência, mas as mãos que percorriam os botões carregavam mais de seis décadas de prática.
Jorge começou a tocar aos 13 anos. A primeira sanfona que teve em mãos era uma pequena, de 48 baixos, pertencente ao irmão mais velho. Ele aprendeu praticamente sozinho, ouvindo pelo rádio as músicas que vinham da casa de um fazendeiro e tentando reproduzir as notas depois. Não tinha formação musical e reconhece que aprendeu de ouvido, errando e tentando novamente até encontrar no instrumento o caminho para aquilo que escutava.
O rádio era sua principal fonte de aprendizado. Por ele chegavam os sons de Luiz Gonzaga, do Trio Nordestino e de outros artistas que alimentavam a imaginação do garoto. A sanfona emprestada se tornou,naquele período, uma companhia constante. Quando conseguia pegá-la, Jorge aproveitava para tocar e repetir aquilo que havia ouvido, mesmo sem saber exatamente como os músicos haviam chegado àquelas notas.
Uma das primeiras experiências marcantes aconteceu ainda na adolescência, quando ele caminhou cerca de 18 quilômetros para tocar em uma festa de São João em Boa Ventura. A sanfona pequena acompanhava o percurso, carregada por um garoto que não tinha dinheiro sequer para pagar a condução. O cachê também não fazia parte daquele acordo. Jorge tocaria pela simples satisfação de estar diante de uma festa e poder fazer aquilo que já ocupava todos os seus pensamentos.
A caminhada pelo sertão fazia parte do esforço necessário para continuar tocando. Em determinado momento, cansado, ele parou sob um juazeiro para descansar. A pergunta que acompanhava o menino era simples e difícil ao mesmo tempo: será que um dia teria uma sanfona maior, de 120 baixos, e conseguiria viver da música? Aparecer na televisão também estava entre os seus sonhos. Naquele momento, porém, ele tinha apenas o instrumento do irmão e a certeza de que sabia tocar alguma coisa.
Décadas depois, o sonho ganhou outra dimensão. No Canto da Ema, Seu Jorge voltou a ocupar o palco diante de centenas de pessoas, agora ao lado dos próprios filhos e do neto. O projeto Volta às Origens recuperava justamente uma parte da história que ele havia ajudado a construir. A iniciativa buscava reproduzir as antigas quartas-feiras do Rastapé e manter a formação familiar como ponto central das apresentações.
Durante o show, o público também pediu uma música conhecida como “O Chineleiro”. A canção havia se tornado tão associada a Seu Jorge que muitos frequentadores acreditavam que fosse de sua autoria. Na verdade, ele não era o autor, mas foi o responsável por batizar a música. O nome acabou ficando gravado na memória do público e passou a fazer parte da ligação do sanfoneiro com aquela obra.
A presença da família no palco transformava o projeto em algo que ia além de relembrar antigas noites de baile. A sanfona que começou nas mãos de um garoto paraibano aparecia agora no centro de uma tradição familiar, diante de um público que conheceu o Rastapé em diferentes momentos da vida.
Essa continuidade ajuda a entender o significado de Volta às Origens. O projeto não resgatava apenas um repertório ou um formato de show. Colocava novamente em cena uma maneira de viver o forró que Seu Jorge conheceu quando ainda era adolescente — quando tocar significava caminhar longas distâncias, aprender pelo rádio e enfrentar festas sem a garantia de receber um tostão furado.
Naquela noite, a distância entre esses dois momentos cabia no mesmo palco. De um lado estava o menino que carregava uma sanfona de 48 baixos por estradas de terra para tocar em um São João. Do outro, o homem de 75 anos sentado diante de centenas de pessoas, com uma sanfona de 120 baixos e a família ao redor.
Entre uma cena e outra, passaram-se mais de seis décadas. O instrumento cresceu, os lugares mudaram e o público se renovou, mas Seu Jorge continuou encontrando no fole a mesma vida que havia descoberto na adolescência. Quando abriu novamente a sanfona no Canto da Ema, o garoto de São José da Lagoa Tapada ainda estava ali — agora dividindo o palco com os filhos e o neto.


