Dió de Araújo estava no estúdio para assistir a uma gravação quando foi chamado para cantar. Até aquele momento, sua participação no Trio Pajeú deveria se limitar à zabumba. Ele havia entrado no grupo quase por acaso, depois de aceitar posar para a capa de um disco porque nunca tinha aparecido em uma. Quando o produtor Mocazé decidiu regravar “O Vira”, dos Secos & Molhados, ninguém sabia cantar a música. João Bosco, que estava no estúdio, lembrou de Dió, que já havia cantado o sucesso em uma casa de forró em Santo André. Ele entrou, cantou e ouviu do produtor que aquele era o intérprete que deveria estar à frente do disco. Foi assim que uma carreira que ele não pretendia seguir começou a ganhar outro rumo.
A história de Dió de Araújo, nome artístico de Deocleciano Jerônimo de Araújo, começa em Escada, na Zona da Mata de Pernambuco. Ele costuma resumir a infância com imagens de uma vida simples, de pés no chão, calça curta, frutas do mato e peixe pescado pela mãe no rio Ipojuca. A família tinha a música no sangue. O pai tocava sanfona de oito baixos, o avô tocava viola e Dió, ainda menino, tocava um instrumento improvisado chamado melê, feito de madeira e borracha de pneu de caminhão. Os irmãos completavam a formação no pandeiro e no tamborim. Nas festas de casamento, batizado e aniversário, a família se reunia para tocar por puro prazer. Era a música integrada ao dia a dia.
A primeira lembrança de Dió como compositor também nasceu de uma cena doméstica. Ele estava na porta de casa quando ouviu um menino chorando porque um cachorro queria atravessar a linha do trem. Em vez de apenas repetir o choro, Dió colocou melodia nas lágrimas da criança. Os pais acharam graça e passaram a colocá-lo em cima da mesa da cozinha para repetir a cantoria. “Já nasci com esse dom”, diria décadas depois. Na adolescência, porém, sua música tomou outro caminho. Aos 18 anos, começou a cantar boleros e sambas e desenvolveu uma ligação especial com o pandeiro, que tocava com as pontas dos dedos. Gostava de Noite Ilustrada, Ataulfo Alves, Cauby Peixoto, Waldick Soriano, Anísio Silva e Alcides Gerardi. O forró ainda não estava nos seus planos.
Aos 21 anos, Dió percebeu que as “canjas” em bailes e orquestras não seriam suficientes para construir o futuro que desejava. Decidiu sair de Pernambuco e foi para Brasília, onde trabalhou como carpinteiro na construção da nova capital. Nos fins de semana, porém, ia atrás do forró. A mesma rotina se repetiu quando veio para São Paulo, trazido por uma empresa que contratava operários para as obras do metrô em Santana e Jabaquara. Durante a semana, encarava o pesado trabalho na obra; aos sábados e domingos, ia ao encontro do Trio Nordestino e das casas onde pudesse cantar. Chegou a pagar ingresso em um baile para, depois, conseguir subir ao palco e cantar de graça.
Foi em Santo André que sua relação com o gênero começou a mudar. Dió cantava bolero e samba nas noites de forró do Trio Nordestino quando os músicos perceberam seu talento. Primeiro, ganhou o direito de entrar sem pagar. Depois, passou a receber um trocado para as despesas. Até que Ciríaco, sanfoneiro do grupo, fez o convite que ele inicialmente recusou: entrar para o trio como zabumbeiro. Dió resistiu. Seu negócio, repetia, era o samba e o bolero. Ciríaco insistiu porque havia conseguido uma gravação com Zé Gonzaga e precisava completar o trio. Dió aceitou apenas para ajudar na foto da capa, imaginando que logo seria substituído. Não foi.
A gravação do Trio Pajeú mudou seu destino. Depois de “O Vira”, Dió participou de outros discos, mas chegou a abandonar o grupo para trabalhar como cantineiro — ainda relutava em ficar preso ao forró. A tentativa de mudar de ramo não durou. Sua caminhada continuou por diferentes grupos até chegar ao Trio Xamego, formado originalmente como Trio Paraná e rebatizado por Anastácia. Mais tarde, passou a tocar com César do Acordeon. Quando percebeu que a parceria não fluía, procurou Dominguinhos. O encontro seria divisor de águas.
Dió trabalhou 28 anos ao lado de Dominguinhos, entre gravações, programas de televisão e turnês pelo Brasil. Durante cerca de 18 anos, os dois viveram praticamente na estrada. Dominguinhos também produziu os primeiros CDs solistas de Dió e o incentivou a conquistar seu próprio espaço. A parceria abriu portas para Dió participar de gravações com gigantes como Gilberto Gil, Djavan, João Bosco, Elba Ramalho e Marinês. Quando Dominguinhos produziu o projeto Dominguinhos e convidados cantam Gonzaga, chamou Dió para gravar a zabumba e a voz guia dos convidados. Era ele quem definia o tom das músicas antes de cada grande artista colocar a voz definitiva.
Foi nesse trabalho que o nome Dió de Araújo ganhou sua forma final. Até então, ele assinava como Dió Araújo. Para o músico, faltava algo. A oportunidade surgiu quando sobrou uma faixa na gravação de Dominguinhos: “Estrela de Ouro”, de Antônio Barros. Convidado a interpretar a canção, Dió fez uma exigência bem-humorada: só aceitaria se colocassem o “de” no seu sobrenome artístico. A justificativa era simples. Seu nome de batismo era Deocleciano Jerônimo de Araújo. Sem o “de”, dizia ele, o nome não tinha força. A gravação foi um ponto de virada na sua carreira, abrindo espaço para novos convites e maior projeção.
Dió também se tornou uma ponte entre diferentes gerações de músicos. Conheceu Luiz Gonzaga e chegou a dividir o palco com o Rei do Baião em bailes de maçonaria, guardando a lembrança de um artista afável e acessível. De Dominguinhos, destaca a profunda humildade: em sua memória, o mestre nunca diminuía quem estava começando; se alguém errava, ensinava com paciência ou simplificava o arranjo. Dió transformou essa lição em filosofia de vida: errar uma nota, uma letra ou desafinar faz parte do palco. O fundamental é ter respeito pelos companheiros e nunca parar de aprender.
Essa postura explica sua generosidade com os artistas mais jovens. Dió estendeu a mão ao Falamansa quando o grupo dava os primeiros passos e abriu espaço para o Rastapé tocar no Remelexo, numa época em que outros veteranos evitavam dividir o palco. Ele faz questão de dizer que prefere a soma: o sucesso de um grupo novo não tira o espaço de quem já está na estrada; a música sempre cabe mais um. Essa visão generosa reflete sua gratidão por São Paulo, cidade que considera decisiva em sua vida e onde encontrou as oportunidades que não teve em sua terra natal.
Em 2020, ao dar um depoimento para uma pesquisa sobre o forró pé de serra em São Paulo, Dió estava no camarim do Remelexo aguardando o início do show do Trio Xamego. A conversa, que começou como uma entrevista formal, logo reuniu outros músicos que se encostaram para ouvi-lo. Dió dominava aquele papel com maestria. Com ar saudoso, ia resgatando memórias de pessoas, antigas casas de show, gravações e viagens, como quem organiza a própria vida por meio das canções. Entre uma lembrança e outra, surgiam as histórias da família, dos quatro filhos, da esposa Conceição e do cotidiano em Guarulhos, cidade onde fincou raízes depois de percorrer vários bairros da capital.
Dió costuma repetir que não planejou fazer carreira no forró — sua paixão inicial era o samba e o bolero. No entanto, foi o forró que lhe abriu as portas dos estúdios, dos palcos e das amizades que moldaram sua vida. Foi ele quem o colocou ao lado dos mestres que admirava na infância e o levou a cantar para públicos em diversos cantos do mundo. Ao olhar para trás, ele resume essa trajetória com a simplicidade dos sábios: “O forró me lançou”. O homem que entrou no gênero meio sem querer acabou dedicando décadas da vida a construir e contar a história do forró em São Paulo.


