Artistas

A trajetória de Zé Duarte, que foi de pau de arara a nome do forró em São Paulo

Com quase 50 anos de carreira, o músico de Lagoa do Ouro trabalhou como balconista, motorista de ônibus e carreteiro antes de viver o auge na gravadora Copacabana.

Zé Duarte, nome do forró em São Paulo

Quando chegou a São Paulo, em 1970, Zé Duarte — então José Duarte Filho — tinha entre 16 e 17 anos e trazia na bagagem uma viagem de cerca de 15 dias desde Lagoa do Ouro, em Pernambuco. Veio de pau de arara, sentado em um espaço estreito, e conta que passou boa parte do caminho comendo banana amassada com farinha. Ao desembarcar no Brás, depois de atravessar a estrada, percebeu que a camisa branca que usava na partida estava amarela por causa da poeira. A carreira musical ainda nem existia. Antes de se tornar Zé Duarte, ele seria balconista, motorista de caminhão, motorista de ônibus e carreteiro.

A relação com o forró havia começado no interior pernambucano, embora a formação musical de Zé tivesse outras referências. Em Lagoa do Ouro e depois em Garanhuns, onde passou a infância e estudou, gostava de serestas e ouvia Ataulfo Alves e Nelson Gonçalves. Também frequentava os forrós realizados nos sítios, em salões de chão batido iluminados por candeeiros. Para chegar às festas, grupos de rapazes caminhavam longas distâncias e se orientavam pelo som do triângulo que vinha de longe. A paixão pelo gênero ganhou força pouco antes da mudança para São Paulo, quando ouviu no rádio “Morena, diga onde é que tu tá”, do Trio Nordestino.

Em São Paulo, Zé foi trabalhar com o tio Vavá, um dos comerciantes que atuavam no mercado de produtos do Norte e Nordeste na região central. Começou como balconista, mas tinha outro plano. Tirou a carteira de motorista e passou a trabalhar com veículos. Dirigiu caminhões, depois ônibus urbanos e, por fim, realizou o sonho de ser carreteiro, fazendo viagens para cidades do Nordeste. Trabalhou na São Miguel, empresa de ônibus que atendia bairros da zona leste, e também na Transamazônica, transportando cargas para Salvador, Fortaleza e outras capitais. A música, naquele momento, ainda aparecia principalmente nas horas vagas.

Foi como motorista de ônibus que ele começou a se aproximar dos músicos que mudariam sua trajetória. Passava pela região do Brás e de São Miguel Paulista e via Galego do Acordeon tocando na porta da Relojoaria Suíça. Também conheceu Tiziu, Zé de Loura, Benício Guimarães e outros artistas que circulavam pelos pontos de encontro dos nordestinos em São Paulo. O Largo do Paissandu era outro desses lugares. Ali, músicos se encontravam para procurar apresentações, trocar informações e, como o próprio Zé conta, conversar sobre a vida alheia.

A Praça do Forró, em São Miguel Paulista, seria decisiva para a formação do artista. Zé Duarte é um dos nomes presentes no início do espaço, que começou ainda na década de 1970 e reunia nordestinos todos os sábados. As apresentações eram gratuitas e aconteciam em chão batido. Luiz Nazaré, pai de Neide Nazaré e Cicinho Silva, estava entre os apresentadores, ao lado de Cisso do Norte. Alzira Viana também passou a integrar o grupo. Para Zé, a praça era sobretudo um ponto de encontro de uma comunidade que encontrou ali um lugar para ouvir música, dançar e rever conhecidos.

Foi nesse ambiente que nasceu a primeira formação profissional de Zé. Em 1979, ele gravou um compacto duplo com o grupo Os Meninos do Forró. A formação reunia Zé, Diva dos Oito Baixos, o percussionista conhecido como Bombeiro e Galego do Acordeon. As quatro primeiras músicas saíram no compacto. No ano seguinte, as demais foram reunidas em um LP com oito faixas. O disco foi feito rapidamente, com os músicos gravando a base e a voz praticamente de uma vez. Décadas depois, tornou-se um dos trabalhos mais procurados por colecionadores do circuito de forró.

Depois veio o Trio Nistas, formado por Zé, Diva dos Oito Baixos e Valdi. O nome surgiu após uma busca para encontrar uma denominação que não se confundisse com os muitos trios nordestinos já existentes. O grupo gravou e circulou pelo Nordeste, enquanto Zé começava a ampliar sua atuação como músico e compositor. Em 1983, recebeu um convite de Pedro Sertanejo, um dos grandes nomes do forró em São Paulo, para seguir carreira solo. Antes de aceitar, Zé conversou com os companheiros para que a mudança não significasse o fim da parceria.

O primeiro disco solo foi Cante Comigo, Zé Duarte, lançado pelo selo Voo Livre e distribuído pela Odeon. O álbum se tornou uma peça rara no mercado de discos de forró. Zé conta que os DJs levaram muitos exemplares para a Europa e que, atualmente, uma cópia pode alcançar valores altos entre colecionadores. O auge, porém, viria na segunda metade dos anos 1980, quando ele entrou para a gravadora Copacabana. Ali estavam nomes como Zé Nilton, Genival Lacerda, Sandro Becker, Trio Nordestino e Messias Holanda. Zé passou vários anos entre os artistas que mais vendiam discos de duplo sentido da gravadora.

O duplo sentido se tornou uma das marcas de sua carreira, mas não foi sua única produção. Zé calcula que cerca de 90% de seu repertório seja composto por músicas de sua autoria. Entre os parceiros estão Durval Vieira, João Gonçalves e João Caetano. Ele também escreveu músicas inspiradas em assuntos que estavam no noticiário ou no imaginário popular, como o chupa-cabra, o carro Kadett e outros temas que acabavam transformados em canções bem-humoradas. No total, afirma ter cerca de 32 sucessos ligados ao duplo sentido.

A lista de músicos com quem conviveu ajuda a dimensionar esse percurso. Zé conheceu e trabalhou com Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Pedro Sertanejo, Jacinto Silva, Azulão, Osvaldinho do Acordeon, Messias Holanda, Edson Duarte e outros grandes nomes da música nordestina. Também atuou como produtor de artistas e grupos, entre eles Erivaldo de Carira (pai de Mestrinho), Negão dos Oito Baixos, os Boêmios Nordestinos de Sergipe e os Embaixadores do Forró de Roraima. Em Caruaru, mantém há décadas uma parceria de gravação com o produtor Carlos Caminha, do estúdio BG.

Uma das histórias que guarda desse período envolve Luiz Gonzaga e Pedro Sertanejo. Os três estavam em um Santana de Pedro, e Zé dirigia o carro durante uma viagem para um posto telefônico. Quando chegaram ao local, algumas pessoas confundiram Zé com Gonzaguinha. A semelhança entre os dois era tamanha que ele precisou explicar que não era filho de Gonzaga. O próprio Rei do Baião entrou na brincadeira. Zé também se apresentou antes de Gonzaga em Salvador e recebeu elogios do mestre, que acompanhava sua carreira e entendia que o humor e o duplo sentido faziam parte do trabalho de um artista jovem.

Zé Duarte afirma ter gravado 46 trabalhos, entre um compacto duplo, 16 discos de vinil e 30 CDs. Também participou de gravações de outros artistas e produziu músicos que passaram pelo circuito nordestino. Uma parte importante desse repertório voltou a ser descoberta por públicos mais jovens, especialmente no Sudeste, onde antigos discos passaram a circular entre DJs e pesquisadores. Ele próprio se surpreendeu ao descobrir que algumas músicas gravadas décadas atrás eram cantadas pelo público em apresentações recentes, mesmo sem terem feito parte do repertório de seus shows durante anos.

A relação com São Paulo continua central em sua maneira de entender o forró. Zé considera a cidade a capital do gênero porque, segundo ele, a música nordestina encontrou aqui um público permanente, enquanto no Nordeste o mercado costumava se concentrar mais no período das festas juninas. Ele lembra que, nos anos 1970, havia até quem escondesse a sanfona dentro de um saco para evitar o preconceito. Hoje, observa uma geração mais jovem dançando forró em diferentes espaços da cidade, embora tenha preocupação com a continuidade da tradição. Para ele, os novos artistas precisam conhecer os pioneiros e entender o que receberam deles antes de tentar construir o próprio caminho.

Depois de mais de cinco décadas em São Paulo, Zé continua trabalhando. Recently voltou a investir no circuito do Sudeste, depois de passar muitos anos fazendo apresentações principalmente no Nordeste. A decisão veio acompanhada de uma preocupação que ele repete ao falar da profissão: o artista precisa ser valorizado. Não basta ter shows. É preciso que o trabalho pague as contas e que exista colaboração entre os músicos. Ele acredita que um artista ajuda o outro quando consegue abrir espaço para o gênero inteiro.

Aos novos músicos, Zé costuma dar um conselho que combina com a trajetória de quem chegou a São Paulo sem saber onde iria trabalhar, dirigiu ônibus enquanto escrevia músicas e entrou na principal gravadora de sua carreira depois de quase perder o dinheiro que havia investido em um disco. Ele diz que é preciso conhecer os mestres, estudar suas histórias e seguir em frente. “Você tem que correr na frente”, resume.

A frase parece combinar com um homem que passou a vida entre estradas, palcos, estúdios e salões de forró. Zé Duarte continua chamando São Miguel Paulista de sua casa artística. Foi ali que conheceu músicos, ajudou a formar a Praça do Forró, gravou seus primeiros discos e encontrou uma comunidade que transformou suas lembranças de Pernambuco em profissão.

NEWSLETTER

Receba o Muito Forró

Notícias, histórias e eventos do forró no seu e-mail.